A noite caira. A escuridão é como um véu delicado porém intransponível. O caminho de casa encontra-se estendido à sua frente como se não houve outras possibilidades. Seus passos curtos e rápidos a guiavam pela via única como sempre fizeram. Mas há qualquer coisa diferente na noite. Está tudo silencioso demais. O ar parecia denso, fazendo com que cada passo fosse mais lento que o anterior. As ruas da cidade estavam vazias. Os feixes de luz que vinham do alto dos postes pareciam estar escorrendo até o chão, como se a luz fosse líquida. Está frio. Os prédios altos e antigos assomavam a sua volta cercando-a. Tinha uma sensação de finitude. Como se não houvesse nada além do limite da sua visão. Ela gostava desta sensação. Dava-lhe segurança.
De alguma janela bem acima da sua cabeça vinha uma melodia lúgubre. Parecia um saxofone. Devia estar animando a noite solitária de alguém com suas notas lentas, quase arrastadas, suaves e penetrantes. Era como se a música estivesse realmente viva e possuísse um corpo. Um corpo belo, sinuoso, transbordando volúpia e levando ao êxtase aquele que a tocava, que a acariciava. Ela foi, aos poucos, ficando para trás, se esvaindo lentamente da sua consciência, até que se extinguiu por completo.
O silêncio agora pesava. A escuridão parecia a envolver em braços frios e a acalentar. Sentia sono e cansaço. Ainda não havia visto nenhuma pessoa. Ninguém parecia estar acordado, ou até mesmo vivo, a não ser ela, o músico e sua música, e a cada passo que dava, mais uma nuance da cidade era desvelada, mas seus olhos não viam muito longe, porém isso não a preocupava. Preocupava-se apenas em continuar em seu caminho, qualquer um, queria apenas continuar.
Então, passo após passo, o seu caminho se desvelou à sua frente. Através de ruas e becos, transpondo toda a realidade fria e dura da cidade de concreto, as sombras, o vazio, vagando entre o visível e o invisível, até que em algum ponto da sua caminhada, seus passos eram levados, como se seus pés estivessem agora decidindo o rumo. Uma porta numa grande parede insossa, uma escadaria, um corredor longo com mais portas. Em uma delas, ela ouviu alguma coisa. Era um sinal. Alguém estava se movendo ali dentro. Ela parou por um instante pela porta. Podia ouvir uma suave melodia, quase inaudível. Era uma valsa. Escutou por mais um breve momento, até que percebeu que a valsa embalava uma dança solitária. Podia ouvir passos percorrendo o chão de madeira velha do apartamento.
Continuou pelo corredor até que entrou por uma porta. Uma porta como todas as outras que levava a um quarto pequeno e frio como o resto da cidade. A sensação de finitude ainda estava com ela, isso a mantinha tranqüila, mas algo ainda a inquietava. Acendeu as luzes para espantar a escuridão líquida que parecia seguir ela. A lâmpada do quarto emitiu raios que lentamente empurraram as sombras para fora, e essas por sua vez, escorreram pelas paredes do prédio como se estivessem em uma fuga vagarosa. O quarto estava livre da escuridão. Dirigiu-se à janela e vislumbrou a cidade que percorrera durante a noite. Teve a impressão de o dia estava nascendo. Alcançou uma garrafa velha de conhaque que estava numa prateleira perto da janela e se serviu de uma dose. Puxou uma cadeira e sentou-se. Bebeu um gole curto e manteve os olhos fechados enquanto sentia o líquido descer-lhe a garganta e gradualmente espantar o frio que a encolhia, então serviu-se de mais uma dose e observou os prédios, duros e imponentes, as janelas, o horizonte, o silêncio, então adormeceu sozinha, vencida pelo cansaço e pelo conhaque, embalada pelo saxofone e pela valsa, apaziguada pela cidade e pelo dia que nasceu cinza.
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