terça-feira, 8 de junho de 2010

O primeiro minuto do dia

Sinto o fim da madrugada chegando. Vejo os raios de luz se rastejando pelos prédios da cidade e parece que ela se espreguiça e se prepara para mais um dia. A massa escura que eu via, dava lugar a um emaranhado de construções, paredões, metais e janelas. E os sons que surgiam! a luz era a deixa para que entrasse em cena a sinfonia que é a vida cotidiana: carros, buzinas, vozes, janelas abrindo, cachorros, gatos, pássaros que acordavam, bom dias, vizinhos que se movimentavam.

Estava sentado numa cadeira, perto da janela, enquanto as engrenagens se moviam. Tinha a impressão de que o sol havia dado o primeiro empurrão e todas as coisas funcionavam como se fossem conectadas, como se estivessem, de fato engrenadas umas as outras. Eu começava a me movimentar também. Mas o meu movimento era diferente. Não me levantei da cadeira quando senti os raios de luz entrando na minha carne e descongelando meu corpo. O movimento foi justamente esse. Senti o corpo descongelar e senti calafrios subindo pelas minhas costas e contraindo todos os meus músculos. Tremia, mas não havia nada a ser feito. A intervenção máxima que me foi possível, foi perceber... e tremer. Já havia assistido dezenas, talvez centenas de alvoradas, mas nenhuma me atiçou tanto os sentidos, a medida que o bege e branco dos prédios me encantava, porque simplesmente eram bege e branco, o verde das árvores lá embaixo respirava e era vivo! as nuvens tão escassas, dançavam no firmamento e se fundiam e se separavam, a sua metamorfose era algo intrínseco demais, belo demais, sincronizado demais para ser algo corriqueiro e pouco notado... o frio estava sempre presente, mas não era algo doloroso. Pelo contrário! era com regojizo que eu sentia-o e cada raiz do meu corpo se contraia e erigia seu pelo, e à medida que eles ficaram eretos, um outro calafrio corria por mim, dessa vez forte e avassalador jogando minha cabeça para trás com violência.

Sentado do meu lado está um amigo. Ele já havia visto o sol nascer, ele sabia do meu momento. Ele me oferece um trago do cigarro dele, o máximo de conforto que ele pode oferecer sem invadir o meu espaço. Eu pego o cigarro, trago e solto a fumaça. Ah, a fumaça! ela dança em frente ao meu rosto, consigo delinear uma face e ela sorri para mim, um sorriso fugidio e perverso, um sorriso fino e sutil, com olhos semicerrados e se desfaz na massa cinzenta desforme, que se contrai e se expande em intermináveis convulsões que prendem os nossos olhares. O meu pulmão arde com o trago, mas não me incomoda. Minha cabeça fica leve. A fumaça foge pela janela e se dissipa.

Me levanto da cadeira. Quero olhar o que está acontecendo. Me encosto no parapeito e olho para baixo. Instantaneamente, um sopro de ar atinge a minha face e empurra meu cabelo para trás. Sinto um frescor na pele grudenta de suor seco. Fecho os olhos e respiro fundo por alguns instantes, sentindo o ar puro e os cheiros que carrega mundo afora. Ouço um barulho, um chiado, olho para baixo para ver dois pontos brancos, lá embaixo, numa correria frenética, percorrendo todo o espaço a eles reservado, se unindo e se separando. Um dos pontos se afasta e percorre uma elipse, parece ter deixado um rastro, um espectro branco por onde passou; o outro corpo ficou prostrado e se movimentava lentamente a medida que se distanciavam. Então os dois dispararam um ao encontro do outro numa velocidade incrível, e se entrelaçaram e se tornaram um, e a única massa branca rolava pelo chão de terra em frente ao prédio. Tudo em volta deles era branco, como se emitissem uma aura brilhante que machasse o chão a sua volta, como se estivessem expelindo brancura, transferindo claridade por osmose. Então a coreografia cessou, e os dois gatos rumaram em direções opostas.

Voltei à minha cadeira, meu amigo ainda estava sentado fumando seu cigarro, a fumaça envolvia-o e a mim também. O mundo já havia se desvelado e de agora em diante tudo que acontecia tinha cara de novidade. Meu amigo se levantou, puxou um cigarro do maço dele, me ofereceu, eu aceitei e ele o acendeu e disse.

- Bom dia!

Nenhum comentário: