Percebi sua aproximação. Ela ainda estava longe, mas perto o suficiente para perceber o seu contorno. Ela vinha em minha direção. Eu estava em pé, encostado em um parapeito, ao lado dos meus dois melhores amigos, mas sabia que ela vinha na MINHA direção. Ela era mais baixa do que eu, tinha cabelos pretos e lisos, escorridos até depois do seus ombros. Sua franja ia até suas sobrancelhas e o cabelo era a moldura perfeita para aquele rosto. Os olhos eram grandes e negros, seu nariz era delicado, sua boca era simplesmente encantadora e os lábios escondiam um sorriso hiptnotizante.
O seu andar era inconfundível. Ela tinha um rebolar discreto, contido, tímido, mas ainda assim vivo e seguro.
Estava vestida daquela forma que era unicamente dela. Usava uma calça jeans simples, e folgada, as barras eram dobradas para cima e a cintura era baixa. Usava uma camiseta casual, mas recortada, mostrando apenas uma faixa diminuta de barriga. Era um traje simples, admito, mas nela tinha um estilo, beleza e charme que não se resumiam a composição dela. Era algo que estava ao seu redor, como uma aura, que permitia que, mesmo em um traje tão simplório, ela fosse linda.
O mundo todo se calou enquanto eu a observava, sabia que ela vinha em minha direção. Assistia cada passo que ela dava com atenção, temendo perder algum detalhe sutil do seu caminhar. Uma dança discreta!
Então, já mais próxima a mim, mas ainda fora do alcance dos meus braços, ela sorri! aquele sorriso adorável! adoro o jeito como os seus olhos enormes se apertam quando ela sorri, e se tornam duas linhas pretas cheias de vida e alegria. Neste segundo entendi o meu amor por ela. Entendi a beleza da sua simplicidade e do seu jeito delicado, o tom da sua voz sereno e macio me acalmava. O toque da sua pele, acolhedor. Fechei os olhos e agora conseguia sentir o seu perfume, suave e discreto como tudo nela, mas ainda assim marcante o suficiente para saber que aquele era o seu cheiro e de mais ninguém!
Fui envolvido pelo aroma. Sentia meu corpo sendo atraído ao seu, urgindo o encontro, necessitando o seu toque. Primeiro meus braços foram vagarosamente erguidos e puxados lenta e firmemente, meus pés saíram do chão e eu entrei em um sonho no qual o ar que me cercava era aconchegante e seu cheiro estava em todos os lugares.
O ar foi esfriando a medida que o cheiro se distanciou, e o sonho luminoso no qual eu me encontrava, escureceu e pareceu me rejeitar, como se meu tempo estivesse acabado. Senti um desespero como nunca havia experimentado. Como isso poderia estar acontecendo? como? se aquele era o meu lugar, se aquilo era o meu destino? que injustiça estava sendo feita comigo? que ser desprovido de alma e coração apartava o homem do seu respirar?
Abri os meus olhos. Ainda estava encostado no mesmo parapeito. Meus dois melhores amigos ainda conversavam entre si e todo o mundo parecia normal, com uma excessão. Ela não estava mais lá. Andei de um lado para o outro até que fui até onde ela deveria ter passado. Então a vi, já longe e de costas para mim, caminhando para qualquer que fosse o seu destino, sem saber do que se passou comigo. Não havia mais sorriso, não havia mais rebolado tímido, não havia mais brilho do olhar, apenas uma lembrança longínqua do seu perfume.
Me encostei novamente no parapeito e senti aquele aroma mais uma vez. Respirei fundo e soube que nunca esqueceria do havia acontecido.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
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