Entro na fila de revista do setor internacional. Estou vestido com uma bermuda de uma malha leve, daquelas que ajuda na transpiração e é bastante usada por atletas, um par de tenis tão confortáveis quanto, e uma camiseta do Autopsy. Tô simples, mas a barba e o zumbi estampado na camisa devem ter passado uma má impressão. Passei por todos os procedimentos de segurança legais, inclusive aquele screening que você precisa abrir os braços e em meio segundo eles sabem se você têm marca-passo, hérnia, culpa, o tamanho da sua piroca, sua última refeição e, é claro, se você tá escondendo alguma coisa. Enquanto isso acontecia, minhas bagagens de mão passavam por aquele scan escroto que mais parece um forno velho. Algo chama atenção, claro, porque não? minha mochila foi a escolhida, carrego cerca de 25 lps dentro dela, uns cinco compactos e quatro cds. A mulher que fazia a revista pediu pra olhar o que tinha dentro da mochila. Ela abre a mochila e pergunta
- what are these? records?
eu respondo
- yeah
ela retorna
- do you have a record player?
que tipo de pergunta é essa? eu já sem saco, mas bem humorado retruco
- off course
ela fuça mais um pouco e acha alguns compactos
- and these?
- these are called seven inches, the others are twelve inches.
Ela enfia um papelzinho dentro da mochila, esfrega em alguma coisa e o coloca dentro de uma maquininha, fiquei com a impressão de que ela queria achar vestígios de drogas ou armas nucleares. Impressão não! tive certeza! por um instante até tive dúvidas. Será que um dos lps veio com drogas ou urânio?
A máquina apita e ela me libera.
Vou até o avião, embarco e algumas horas depois chego na minha conexão. Preciso esperar cerca de sete horas para o voo final. Sento em uma cadeira aleatória em frente a um portão de embarque próximo ao meu. As pessoas vem e vão, os portões se abrem e fecham e um por um todos embarcam. Nossas bagagens de mão estão cuidadosamente acomodadas do nosso lado, mas, não sei ao certo porque, olho para minha mochila e tenho a impressão de que ela está planejando algo contra mim.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
Cinco minutos numa frigideira de teflon
O dia está claro. Quente. O asfalto parece ser uma frigideira revestida de teflon, daquelas que na qual nada gruda e se você quiser, um ovo pode ser frito sem uma gota de manteiga.
O motor barulhento do meu carro maltratado, dá uma trégua quando tiro o pé do acelerador e pressiono o outro na embreagem. Ele desliza ladeira abaixo. Controlo-o com o freio e o conduzo para a traseira de outro carro velho.
Estou de frente àquele semáforo que fica fechado por cinco minutos e permanece aberto por quarenta segundos e multiplica o calor refletido pelo teflon 'asfáltico' por quantias incalculáveis. A distância entre meu carro e o semáforo é de cerca de cinqüenta metros, o que equivale a muitos carros. Cinquenta metros é pouco, isso eu reconheço, mas é uma distância curta quando você está a pé, ou então quando o trânsito flui. O meu caso era nenhum deles. Eu estava ali para esperar.
O semáforo abriu, os carros demoram alguns segundos para começar a andar. Cada carro leva alguns segundos para andar. Existe também um entroncamento oblíquo vindo da esquerda que está sempre congestionado, para variar. O semáforo fecha e estou a cerca de trinta metros dele...
Abre outra vez. Desta vez, quando a luz vermelha nos abençoa com a sua presença, fico na segunda fileira. Apenas um carro entre o meu e a via desobstruída.
Aqueles últimos cinco minutos parecem demorar o dobro. Vidas se passam e nada mudou. Uma infinidade de carros passa, pessoas atravessam a faixa de pedestre, flanelinhas aparecem para limpar os pára-brisas dos carros, vendedores de traquitanas perambulam entre os carros com seus produtos. Um em especial me chama atenção. Ele está vestido com uma bermuda quadriculada, daquelas que estão na moda hoje em dia, uma camiseta descolada com uma estampa qualquer. Um brinco brilhante na orelha esquerda e um piercing na sobrancelha oposta. Honestamente, nunca havia visto um vendedor de semáforo bem vestido e tão bem produzido. Sua barba estava rente e seu cabelo tinha um corte daqueles que atraem garotas. Ele passeava por entre os carros vendendo ursinhos e brinquedos infantis plásticos, multi coloridos. Então pára. Enfia a mão no bolso e dele sai um celular daqueles de aba, que se abrem e fecham para atender ou desligar uma ligação. Ele casualmente pára o que está fazendo e ali, entre os carros e motoristas impacientes, ele conversa. Conversa e suas feições indicam que o que ele está ouvindo é bom. Deve ser algum programa para mais tarde. Eu mesmo não tenho programa para mais tarde, vou voltar para casa, comer algum pão e dormir cansado. Ele vai para alguma festa... Quem sabe.
A ligação termina. O vermelho dá a vez para o verde e lentamente os carros andam. O vendedor descolado anda lentamente para a calçada e senta numa cadeira à sombra de uma árvore, o seu escritório a céu aberto. Sua clientela está ali, invariavelmente, por cinco minutos com intervalos de quarenta segundos, a sua mercê.
Não há como não prosperar!
O motor barulhento do meu carro maltratado, dá uma trégua quando tiro o pé do acelerador e pressiono o outro na embreagem. Ele desliza ladeira abaixo. Controlo-o com o freio e o conduzo para a traseira de outro carro velho.
Estou de frente àquele semáforo que fica fechado por cinco minutos e permanece aberto por quarenta segundos e multiplica o calor refletido pelo teflon 'asfáltico' por quantias incalculáveis. A distância entre meu carro e o semáforo é de cerca de cinqüenta metros, o que equivale a muitos carros. Cinquenta metros é pouco, isso eu reconheço, mas é uma distância curta quando você está a pé, ou então quando o trânsito flui. O meu caso era nenhum deles. Eu estava ali para esperar.
O semáforo abriu, os carros demoram alguns segundos para começar a andar. Cada carro leva alguns segundos para andar. Existe também um entroncamento oblíquo vindo da esquerda que está sempre congestionado, para variar. O semáforo fecha e estou a cerca de trinta metros dele...
Abre outra vez. Desta vez, quando a luz vermelha nos abençoa com a sua presença, fico na segunda fileira. Apenas um carro entre o meu e a via desobstruída.
Aqueles últimos cinco minutos parecem demorar o dobro. Vidas se passam e nada mudou. Uma infinidade de carros passa, pessoas atravessam a faixa de pedestre, flanelinhas aparecem para limpar os pára-brisas dos carros, vendedores de traquitanas perambulam entre os carros com seus produtos. Um em especial me chama atenção. Ele está vestido com uma bermuda quadriculada, daquelas que estão na moda hoje em dia, uma camiseta descolada com uma estampa qualquer. Um brinco brilhante na orelha esquerda e um piercing na sobrancelha oposta. Honestamente, nunca havia visto um vendedor de semáforo bem vestido e tão bem produzido. Sua barba estava rente e seu cabelo tinha um corte daqueles que atraem garotas. Ele passeava por entre os carros vendendo ursinhos e brinquedos infantis plásticos, multi coloridos. Então pára. Enfia a mão no bolso e dele sai um celular daqueles de aba, que se abrem e fecham para atender ou desligar uma ligação. Ele casualmente pára o que está fazendo e ali, entre os carros e motoristas impacientes, ele conversa. Conversa e suas feições indicam que o que ele está ouvindo é bom. Deve ser algum programa para mais tarde. Eu mesmo não tenho programa para mais tarde, vou voltar para casa, comer algum pão e dormir cansado. Ele vai para alguma festa... Quem sabe.
A ligação termina. O vermelho dá a vez para o verde e lentamente os carros andam. O vendedor descolado anda lentamente para a calçada e senta numa cadeira à sombra de uma árvore, o seu escritório a céu aberto. Sua clientela está ali, invariavelmente, por cinco minutos com intervalos de quarenta segundos, a sua mercê.
Não há como não prosperar!
quinta-feira, 3 de março de 2011
O centro da cidade faz menos sentido a cada dia que passa.
Estou no centro da cidade. A tarde se aproxima do seu fim. Ando alguns metros pela rua de calçadas estreitas e viro à direita. Nesta direção a rua se torna uma ladeira para baixo. Muitas pessoas subindo em direção contrária à que seguimos, é quando percebo um senhor de costas para nós, abordando outras pessoas. Seu aspecto é sujo e maltrapilho, como se não tomasse banho ou trocasse de roupas a alguns dias.
Uma das pessoas que ele aborda lhe respondeu:
"eu não entendo nem português, quiçá inglês!"
Seu ritmo diminui até alcançamos ele, então ele fala em inglês:
"hey, musicians!"
Olhamos para trás e respondo em inglês, pergunto o que ele queria e ele responde dizendo que fala inglês, francês e português e que era professor de línguas. A dívida de alguns dos seus alunos, somadas alcançava 2.300 reais e ele tinha apenas dois reais até depois de amanhã.
"Please, that's all I have 'til tomorrow"
Dois reais de modeas de vinte e cinco centavos. Ele agradece muito. Tinha um jeito meio afeminado. Disse que trabalhava com teatro e dança também.
Viramos as costas e continuamos ladeira abaixo. Entramos no discreto corredor a direita, metros a frente, descemos as escadas e entramos pelo portão de grade.
Por que, no centro da cidade, aquele velho pedia dinheiro em inglês?
Uma das pessoas que ele aborda lhe respondeu:
"eu não entendo nem português, quiçá inglês!"
Seu ritmo diminui até alcançamos ele, então ele fala em inglês:
"hey, musicians!"
Olhamos para trás e respondo em inglês, pergunto o que ele queria e ele responde dizendo que fala inglês, francês e português e que era professor de línguas. A dívida de alguns dos seus alunos, somadas alcançava 2.300 reais e ele tinha apenas dois reais até depois de amanhã.
"Please, that's all I have 'til tomorrow"
Dois reais de modeas de vinte e cinco centavos. Ele agradece muito. Tinha um jeito meio afeminado. Disse que trabalhava com teatro e dança também.
Viramos as costas e continuamos ladeira abaixo. Entramos no discreto corredor a direita, metros a frente, descemos as escadas e entramos pelo portão de grade.
Por que, no centro da cidade, aquele velho pedia dinheiro em inglês?
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