sábado, 19 de junho de 2010

Genuinamente acompanhada (30 de maio, 2008)

Eles andam pela relva. O capim macio massageia seus pés cansados enquanto eles descem a ravina em direção à margem do lago. Era um lago plácido e extenso, parecia não ter fim em um das suas extremidades. Era um belo lago margeado por uma bela colina de grama macia e de um verde vivo como a luz do sol salpicada com árvores esparsas e robustas. O clima está agradável: nuvens cobrem parcialmente o céu e os raios de sol irrompem através delas como se estivessem fazendo um esforço descomunal para romper uma barreira intransponível. Ainda assim não está frio. Nem quente. Está agradável. Um vento frio sopra por entre as colinas que rodeiam o lago, fazendo com que os cabelos dos dois esvoaçassem livres e arredios. O frio era compensado pelo calor repentino que os raios emitiam quando extrapolavam o maciço de nuvens.

Perto de umas das extremidades do lago estavam os seus destinos. Eram para aquele lugar que eles rumavam.

E foram seguindo seu rumo. Descendo a colina com leveza e alegria estampada nas suas faces jovens. Alegria, pois estão indo para o lugar que sempre mereceram estar, alegres por estarem juntos, compartilhando mais esse momento, alegres por amarem um ao outro mais do que nunca e por terem certeza absoluta que ao chegarem ao seu destino, esse amor será preservado, cultivado e expandido. Por toda a eternidade.

Eles dois trocam olhares apaixonados, mas não proferem uma palavra sequer sabem que palavras não são necessárias no lugar que estão, sabem que se falarem quebrarão o silêncio e assim suas intimidades, suas juras e sentimentos serão jogados ao vento.

O vento. O único que ousa quebrar o silêncio envolvente dessas paragens mágicas.

Então, quase que imperceptivelmente, o uivo do vento se torna uma lamúria.

Essa mudança passa despercebida pelos dois. Eles continuam na sua descida serelepe. Seus pés pareciam não tocar a grama verde. As mãos se entrelaçam e eles atingem juntos os ápices da cumplicidade, da intimidade e da entrega dos seus corpos e almas. Então param, trocam olhares e se abraçam até que seus corpos tenham se tornado um e suas almas residissem o mesmo lugar.

Então, ela se afasta e seu olhar está diferente. Ela se senta em uma pedra próxima e olha para o chão. Vê as folhas de capim entre seus dedos. Sente frio, um frio tão cortante que mesmo que seu amado a cobrisse com seu corpo, ela não sentiria conforto. Então soube que sua hora havia chegado. Limitou-se a trocar mais um olhar com ele que agora estava a sua frente, agachado, com o olhar mais acolhedor que ele podia oferecer. Então houve mais um contato, um olhar sublime entre os dois que deixou claro para ele o que ela havia descoberto. E seu olhar entristeceu. Estavam tão perto do seu destino. O que poderia ele fazer? Então, ela ousou o inesperado. Ela quebrou o silêncio e disse “não me deixe, pois chegou minha hora”. Nesse momento o mundo todo estremeceu, a grama perdeu sua vivacidade e a lamúria do vento se tornou um choro. Todos souberam o que estava acontecendo e todos perceberam o que o mundo estava prestes a perder, mas ninguém ousou se aproximar e arriscar profanar o momento mais intenso da vida dos dois. Ele então, seguindo o exemplo da sua amada, quebra o seu silêncio “não te deixarei, mesmo após a sua partida definitiva”. E todo o mundo se calou e chorou baixinho.

Ela então se deitou e aconchegou na pedra, que parecia estar aquecida. Uma sutil condolência do mundo que lamentava. Ele a acompanhou. Deitou-se às suas costas e pôs-se a acariciar seus cabelos fartos, tocar com a ponta dos dedos a sua pele macia e quente e deslizar por todo o corpo suas mãos cheias de vida. Ela então se vira para ele e eles se olham. E permanecem assim por tempo incontável. Horas, dias, meses poderiam ter passado naquele breve instante, mas eles não saberiam dizer. Estavam absortos na paixão que os seus olhares irradiavam. Ela soube, nesse instante, que ele não se esqueceria dela. Mesmo após a passagem de eras, ela ainda estaria viva na sua memória.

Não se sabe quanto tempo os dois permaneceram naquela posição, se olhando e se amando de forma tão delicada e sutil. O que se sabe é que muito tempo passou, e ele começou a sentir o peso do cansaço. Suas pálpebras pendiam pesadamente sobre os olhos, suas idéias e raciocínios começaram e ficar lentos e turvos, então ela lhe dispensou um olhar de compaixão, como se dissesse que ele poderia dormir, pois o que ele podia ter feito por ela, ele fez. Então sua mente flutuou para algum lugar distante. Parecia um túnel, sem fim. Uma queda suave até as profundezas do seu ser. Até que avistou alguma coisa. Seria uma luz? Não. Era o reflexo de um lago, cercado por um enorme gramado verde. Então ele se viu deitado na mesma pedra que se encontrava a sua companheira. Mas ele estava sozinho nela. Os raios ainda apareciam esporadicamente, o vento ainda uivava balançando a grama macia. Mas ele estava sozinho. Sentiu um vazio enorme, sentiu que tudo que tinha cultivado com sua companheira havia se esvaído da sua memória. Não gradualmente, mas abruptamente. Um frio percorreu seu corpo e ele caiu de joelhos e chorou. Quando sua primeira lágrima tocou o chão, ele ouviu algo, uma voz, um som que ele adorava acima de tudo, mas que até então parecia estar longe e perdido para sempre: a voz da sua companheira, que perguntava por que ele chorava.

-choro, pois deixei você escapar da minha memória

Mas ele estava enganado. O que vira foi uma premonição do que aconteceria se perdesse esse momento, se abrisse mão de presenciar o último momento da sua amada. Então decidiu acordar para ver que ela ainda estava ao seu lado.

-como posso me perdoar por ter arriscado perder esse momento?

-como posso te culpar se esteve ao meu lado por todo esse tempo? O momento não passou e ainda preciso de você comigo

Então se calou e a tomou nos braços. Ao fazer isso, seu corpo tomou proporções gigantescas, e ele pode envolver ela completamente, e pode aquecer ela com o seu próprio corpo e transmitir seu amor, paixão e carinho dessa forma.

Um sorriso, um brilho no olhar. Ela então pediu que ele aproximasse seu rosto do dela e falou baixinho ao seu ouvido.

-eu te amo, mas isso você já sabe. Por isso parto em paz

Então deu seu último suspiro com delicadeza e calma e seus olhos se fecharam para nunca mais trocar nenhum olhar com o seu escolhido.

Nenhuma lápide foi feita para ela, nenhum epitáfio escrito. Tudo a seu respeito estaria, de ali em diante, guardado na mente daquele que esteve com ela genuinamente.

No lugar da sua sepultura nasceu uma árvore de tronco robusto e imponente, sua copa era frondosa e larga, e suas folhas eram vivas e balançavam com alegria ao vento que presenciara todo o ocorrido.

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