sexta-feira, 20 de novembro de 2009

De frente pro mar.

Estaciono o carro em uma ladeira estreita. Muitos carros passam naquele lugar, ônibus também, apesar da largura da pista. A ladeira é perpendicular a uma das avenidas mais importantes da cidade que contorna o mar. A vista dessa ladeira é de uma pequena enseada de águas calmas salpicadas por barcos de pescadores que ainda pelejam para manter sua tradição frente à cidade grande que devora quem ficou para trás. É uma vista bonita, no entando está de noite e além do parapeito que separa a calçada da areia da praia tudo é negro. Não se vê coisa alguma, como se uma barreira espessa estivesse ali e nada pudesse passar por ela.

Tranco o carro e desço a ladeira, dobro uma esquina à minha esquerda e então uma calçada larga se revela para mim, nela há um bar, suas mesas fica do lado de fora, na calçada de frente para o mar que não se vê. Há quatro mesas na calçada, apenas uma delas ocupada. Nunca vi mais de três mesas ocupadas ali, era o mais baixo dos bares daquele bairro, que abrigava inúmeros, o local onde toda a escória, todos os fracassados, mendigos, baratas e ratos se encontravam.

Lá eu estava. Sem saber exatamente o que fazia em tal lugar. Não que eu fosse do tipo que frequentasse locais decentes, mas nesse dia específico me sentia um pouco sem propósito e a indecência cobrava seu preço a medida que as pessoas passavam em frente ao bar e olhavam aquilo com um olhar de desdém. Deviam achar que aquilo era um reduto de putas e vagabundos. Não estavam muito distante da realidade, mas todos nós tínhamos algo dentro de nós que nos salvasse, que servisse para alguma coisa. O problema é que não tínhamos muita disposição para achar essa coisa. Me sentei e pedi uma cerveja.

Olhava tudo a minha volta, quem passava, os dois bêbados na mesa ao lado, o garçom sem dentes que roubava bebida atrás do balcão acreditando piamente que ninguém percebia o que estava fazendo. Todos percebiam, mas quem não roubaria cerveja detrás de um balcão de um bar de quinta categoria?
Enquanto meus olhos perscrutavam os arredores da minha mesa, percebi que alguém vinha na minha direção. Era uma forma conhecida, no entando não lembrava quem era. Então, a certa distância de mim, a pessoa abre a boca e mostra seus dentes amarelos. Um sorriso e então se senta ao meu lado:

- E aí, cara? como andam as coisas?
- Tudo bem, cara.
- Faz muito tempo que não nos vemos, o que anda fazendo?
- Nada demais, estudando, fugindo da polícia, tentando ganhar algum dinheiro...
Acabara de lembrar dele: nossas bandas haviam tocado juntos em um show em qualquer lugar. Não gostava muito dele e menos ainda da sua banda. Eu sabia que era um cara legal o seu problema é que cheirava muita cocaina. O meu era beber demais. Mesmo assim, não o queria perto de mim.
- Entendi. Então cara, está sozinho?
Sim, eu estava completamente sozinho aquela noite, nenhuma puta, nenhum amigo, mas ele não era meu amigo. Ele era um cheirador, "nariz-de-platina", como dizem por aqui, e eu era um bêbado. Mas não o queria perto de mim.
- Não cara. Estou esperando uma garota amiga minha.
- Entendi. Mas porque não marcou em um lugar decente?
- Porque em lugares decentes a cerveja é cara.
Se despediu e foi embora.

Logo após esse incidente, reparei que na calçada, quase já no asfalto, estava uma barata, negra e enorme. Não se mexia, apenas balançava aquelas antenas descomunais e olhava em volta, da mesma maneira que eu havia feito instantes antes. Aquilo prendeu minha atenção até ela ir embora. Eu só queria ficar sozinho.

A cerveja acabou. Pedi outra, me virei para os bêbados da mesa ao lado e pedi um cigarro. Nunca fui fumante. De todos os vícios que tenho na vida, fumar tabaco nunca foi um deles. Minha fraqueza é o álcool. O bêbado me deu um cigarro, nem vi a marca, mas isso também não importa, quem tem preferência por marca de cigarro é fumante, e eu não era fumante. Pedi também um isqueiro emprestado, ele me jogou de longe. Acendi o cigarro e devolvi o isqueiro, bebi um gole da cerveja, estava quente! que porcaria de lugar serve cerveja quente? pergunta retórica. Enchi o copo e dei outro grande gole. O garçom também.

Fumava o cigarro que não era meu e pensava na mentira que havia contado. Não me importo em mentir, mas tranquiliza saber que ele também já mentiu, provavelmente mentiras maiores e mais graves.
Bebi outro gole.
Será que ele já havia mentido para conseguir pó? com certeza!
Outro gole.
Eu também havia mentido para conseguir bebida.
Outro gole quente.
Será que ele já havia roubado para conseguir pó? com certeza. Eu não gosto de admitir, mas quando era um garotinho, roubei alguns trocados da bolsa da minha mãe para comprar uma cerveja. Foi a primeira vez que roubei, mas não foi a primeira que bebi.
Outro gole.
Será que alguma vez ele se deu bem por causa da cocaina? com certeza. Sempre há alguém desesperado por pó, algum dia ele deve ter levado alguma pobre puta pra cama por que tinha uma carreira a mais e ela uma a menos. Eu nunca gostei de cheirar pó, mas gosto de bebida. Uma vez embebedei uma garota e a levei pra minha cama. Sei que ela nunca o faria se estivesse sóbria.
Mais um gole. A cerveja acabou. Pedi outra.

O garçom desdentado veio até mim com uma garrafa na mão, tirou a tampa e me serviu um gole, e enquanto via a cerveja preencher o copo, percebi que mais alguém estava ao seu lado. Era um mulher. Muito bonita para falar a verdade, então percebi que a conhecia. Era uma garota de quem um dia eu quis algo mais. Havia convidado-a para um boteco, paguei um jantar, a peguei em casa e a deixei de volta, mas nada aconteceu. Um grande amigo me chamou de idiota e disse que eu perdi uma grande oportunidade de me dar bem quando contei a história.

- E aí, cara. O que você tá fazendo por aqui.
- Você sabe, tomando uma, esperando alguns amigos
Outra mentira, mas eu só queria ficar sozinho comigo mesmo, aquilo estava prendendo a minha atenção.
- Tudo bem, vejo você por aí, um abraço!

Antes de me despedir dela, o garçom se afastou da minha mesa para atender os bêbados ao lado. Então ela se foi. Dei um gole de cerveja, desta vez estava razoavelmente gelada. A barata reapareceu. Andou de um lado para o outro, farejando cada canto e buraco do concreto. Então lentamente começou a vir na minha direção. Passo após passo ela se aproximava, como se estivesse em uma caçada e farejasse podridão. Estava a um metro e se aproximando, seus olhos negros e grandes me olhando. Olhar de reprovação, eu conhecia bem esse olhar. Quando cheguei bêbado em casa pela primeira vez minha mãe olhou pra mim desta mesma forma, como uma barata rastejando em minha direção, anulando tudo a minha volta até o ponto em que tudo que existia era ela e seu olhar, aquela sensação de que eu estava desperdiçando minha vida, de que a única esperança para mim era nascer de novo e tentar tudo mais uma vez, enfrentar tudo de novo. A barata se aproximava, uma mancha preta no concreto sujo, até que ficou ao lado do meu pé. Eu conseguia ouvir a voz da minha mãe dizendo que não havia criado um bêbado.

Eu não estava disposto a ouvir aquilo.

Levantei o pé e esmaguei a barata. O barulho das ondas do mar invisível apareceu ensurdecedor. Dei um gole de cerveja e finalmente estava sozinho. Terminei a garrafa, apaguei o cigarro e me levantei. O garçom bêbado estava tomando mais um gole escondido. Era a oportunidade perfeita. Me saí rapidamente, dobrei a esquina à direita, subi a ladeira, destranquei o carro, dei a partida e lentamente dirigi para longe daquele buraco.

Um comentário:

Lídia Dourado disse...

Quando vc estiver longe e sentir saudades, leia o seu texto. Vc vai sentir uma deliciosa sensação do lugarzinho podre onde nos conhecemos.