sábado, 23 de abril de 2011

Cinco minutos numa frigideira de teflon

O dia está claro. Quente. O asfalto parece ser uma frigideira revestida de teflon, daquelas que na qual nada gruda e se você quiser, um ovo pode ser frito sem uma gota de manteiga.

O motor barulhento do meu carro maltratado, dá uma trégua quando tiro o pé do acelerador e pressiono o outro na embreagem. Ele desliza ladeira abaixo. Controlo-o com o freio e o conduzo para a traseira de outro carro velho.

Estou de frente àquele semáforo que fica fechado por cinco minutos e permanece aberto por quarenta segundos e multiplica o calor refletido pelo teflon 'asfáltico' por quantias incalculáveis. A distância entre meu carro e o semáforo é de cerca de cinqüenta metros, o que equivale a muitos carros. Cinquenta metros é pouco, isso eu reconheço, mas é uma distância curta quando você está a pé, ou então quando o trânsito flui. O meu caso era nenhum deles. Eu estava ali para esperar.

O semáforo abriu, os carros demoram alguns segundos para começar a andar. Cada carro leva alguns segundos para andar. Existe também um entroncamento oblíquo vindo da esquerda que está sempre congestionado, para variar. O semáforo fecha e estou a cerca de trinta metros dele...

Abre outra vez. Desta vez, quando a luz vermelha nos abençoa com a sua presença, fico na segunda fileira. Apenas um carro entre o meu e a via desobstruída.

Aqueles últimos cinco minutos parecem demorar o dobro. Vidas se passam e nada mudou. Uma infinidade de carros passa, pessoas atravessam a faixa de pedestre, flanelinhas aparecem para limpar os pára-brisas dos carros, vendedores de traquitanas perambulam entre os carros com seus produtos. Um em especial me chama atenção. Ele está vestido com uma bermuda quadriculada, daquelas que estão na moda hoje em dia, uma camiseta descolada com uma estampa qualquer. Um brinco brilhante na orelha esquerda e um piercing na sobrancelha oposta. Honestamente, nunca havia visto um vendedor de semáforo bem vestido e tão bem produzido. Sua barba estava rente e seu cabelo tinha um corte daqueles que atraem garotas. Ele passeava por entre os carros vendendo ursinhos e brinquedos infantis plásticos, multi coloridos. Então pára. Enfia a mão no bolso e dele sai um celular daqueles de aba, que se abrem e fecham para atender ou desligar uma ligação. Ele casualmente pára o que está fazendo e ali, entre os carros e motoristas impacientes, ele conversa. Conversa e suas feições indicam que o que ele está ouvindo é bom. Deve ser algum programa para mais tarde. Eu mesmo não tenho programa para mais tarde, vou voltar para casa, comer algum pão e dormir cansado. Ele vai para alguma festa... Quem sabe.

A ligação termina. O vermelho dá a vez para o verde e lentamente os carros andam. O vendedor descolado anda lentamente para a calçada e senta numa cadeira à sombra de uma árvore, o seu escritório a céu aberto. Sua clientela está ali, invariavelmente, por cinco minutos com intervalos de quarenta segundos, a sua mercê.

Não há como não prosperar!

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